quarta-feira, 7 de maio de 2008

Troca da guarda

Belíssimo texto de Mauro Beting... Vale a pena conferir...

Foi num 3 de setembro que chorei a dor de um amor partido: partiam Luís Pereira e Leivinha para o Atlético de Madri. A segunda academia palmeirense estava sendo desmontada, em 1975; foi num 3 de setembro que perdi a voz e a esperança: o Palmeiras perdeu para a Inter de Limeira o SP-86; foi num 3 de setembro que perdi a voz e ganhei outro amor eterno: nasceu meu Luca, em 1998, três anos antes do Gabriel, outro palestrino de DNA.

Aprendi cedo que o amor é incondicional. O de um time de futebol é como o de pai. O seu filho pode fazer o que for, pode se perder pela vida, que você já ganhou a sua desde o primeiro chute – na barriga da mãe. Um dos primeiros chutes do Luca foi com o Oséas, na final da Copa do Brasil-98. Aquele balaço infantil que deu o título ao Palmeiras. Três dias antes de sabermos que aquela criança se chamaria Luca, e não Giovanna –e quase virou Oséas...

O Luca nasceu campeão da Copa do Brasil, e, com três meses, já ganhava no berço a faixa de campeão da Mercosul-98, e um macacão assinado por todo o time, que tinha dado para o avô por agradecimento a uma palestra dada ao elenco antes da decisão com o Cruzeiro. Não tinha um ano e ganhou a faixa de campeão da Libertadores-99. Com menos de dois, acordou chorando com o pai berrando o pênalti que Marcos defendeu na Libertadores-00. Ele mal sabia, mas já não dormia por causa de vitórias e títulos palmeirenses.

Quando Luca e o pai ainda não conheciam a maravilhosa mãe e mulher que tinham, eu tive a estúpida idéia de só estreá-lo no Palestra num jogo contra um time fraco. Para não dar erro. Quem mandou desacreditar do campeão do século 20? Tanto torci por um rival frágil que meu filho estreou nos campos num jogo da Série B, em 2003...Mas ele já sabia que amar não exige vitória. Pede apenas amor. Apenas que a gente entre em campo e jogue pelo time quando os jogadores não conseguem jogar pela gente. Foi o que fizemos na Série B, em 2003. Fomos campeões. E voltamos a ser o que sempre fomos. Time e torcida de primeira. Como ele, Luca, do baixo de seus quatro anos, ficou a semana toda do rebaixamento contra o Vitória, em 2002, com as três camisas do Palmeiras que tinha. O pai envergonhado mal conseguia trabalhar, e o filho vestindo verde com o orgulho que nenhum torcedor pode perder. Mesmo se o time seja vergonhoso como a diretoria que o montou.

O Luca que esteve ontem no Palestra era o segundo menino mais feliz que vi no estádio – junto com milhares de crianças verdes pelo país. Mas eu conheço muito bem um menino um tanto mais velho que não sabe escrever o que é ser pai de um menino campeão pela primeira de muitas vezes. Para fazer o Palestra ser campeão como Palmeiras era preciso resgatar uma bandeira. Craque que fez a América e foi Verdão até na Série B. Marco singular, mas com nome no plural. Também por ser um camisa 1 que veste a número 12. Talvez por tantas vezes jogar por todos os 11, e de sempre torcer como todos os tantos que jogam nas arquibancadas.Sua santidade Marcos, o anjo-guardião palmeirense, depois de 11 meses parado, voltou à meta na derrota para o Guará. Nem ele achava que fosse a hora certa. Mas foi ganhando condição de jogo. Com ele, todo o Palmeiras. Foram oito vitórias seguidas até a derrota para os pés e mãos são-paulinos. A virada com todo o gás se deu em casa. No palco da confirmação do 22º. estadual contra a brava Ponte Preta.

Com a melhor campanha e o melhor ataque, o melhor time deu a última volta olímpica estadual no velho Palestra. Ele será reformado para em breve sediar os jogos de um antigo campeão. De espírito jovem como o vovô Marcos que ergueu a taça que ficou em ótimos pés. E que tanto merecia ser erguida pelas melhores mãos. Marcos que acabou com o jogo, mas não acabou o jogo. Pouco antes do fim que é um recomeço, Luxemburgo trocou Marcos por Diego Cavallieri. Naquele instante, o Palestra que já estava em pé ficou nas alturas, suspenso como o gramado. Era a troca da guarda, a troca de bastão. No centro do gramado, passando a camisa e a tradição que vem de Oberdan e de eternos palestrinos das metas quase sempre alcançadas e muito bem defendidas, o Palmeiras passou do 12 pro 1.

Algo que nós continuaremos fazendo no velho-novíssimo Palestra. Passando o Palmeiras de um para o outro. De pai para filho, como passo para os meus Luca e Gabriel.Isso não muda. Mesmo que o Palmeiras precise mudar para continuar sendo ainda mais Palmeiras.Não podemos ficar mudos. Muda, Palmeiras. Mude para melhor. Mude para o melhor. Mude para ser ainda mais Palmeiras.

Não volte a ser um time de segunda com uma direção de quinta. Passe o bastão como Marcos a Diego. Gente jovem que irá erguer a nova Academia e a nova arena. Que faça fora de campo o que está sendo feito dentro do gramado.Vamos seguir o nosso jogo em 2008.

Mauro Beting

AVANTE PALESTRA! ARREBENTA QUE A VITÓRIA JÁ É NOSSA!

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